Bruno Pereira e Dom Phillips: a mensagem que fica, por André Marsiglia

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Com imenso pesar, todos acompanhamos no decorrer da última semana a confirmação das mortes do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista e correspondente britânico Dom Phillips, no Vale do Javari, no Amazonas.

O caso está sob investigação e os corpos ainda estão sendo periciados, mas os indícios de que foram assassinados em razão de fiscalizações e denúncias contra garimpeiros, madeireiros, pescadores ilegais e narcotraficantes nas terras indígenas da região amazônica são muitos. E a crueldade e brutalidade empregadas contra os dois foram tamanhas, que é necessário entendermos o que sofreram seus corpos como um atentado contra o direito a denunciar, a se expressar, um atentado contra a essência do jornalismo.

Respeitada a dor de familiares e amigos, vivenciada a indignação da sociedade e a comoção internacional em torno dos fatos, é preciso captarmos a mensagem que os assassinos deixaram: defender uma causa e exercer o jornalismo no Brasil são atividades muito frágeis. E a mensagem que as vítimas deixam: enfrentar a fragilidade é um exercício de resistência.

A fragilidade da atividade jornalística no país é incontestável: agentes públicos atacam veículos e profissionais de imprensa, a legislação cada vez mais criminaliza a atividade, o judiciário persegue sistematicamente aqueles que fiscalizam os poderes da República. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) aponta que os ataques a jornalistas cresceram no país mais de 200% nos últimos anos. No índice global de Liberdade de Imprensa de entidades como a RSF (Repórteres sem Fronteiras), o Brasil se encontra ao lado de países sob regimes ditatoriais e em guerra.

Há quem alegue ser o jornalismo criticado e perseguido pela sua má qualidade e por ter se corrompido. Ainda que fosse verdade, não explicaria os índices. O jornalismo de má qualidade não merece crítica, mas ser ignorado. O jornalismo corrompido não incomoda poderosos, mas os agrada.

O jornalismo não está sendo ignorado, está sendo atacado; e seus profissionais estão sendo censurados, presos e mortos. E isso em razão de incomodarem, fiscalizarem e serem lidos. É muito triste – mas verdadeiro – que mortes como estas sirvam para demonstrar que na fragilidade encontramos foco de luta e de resistência.

E os que discursam contra a credibilidade da imprensa, estimulando que você, leitor, assista à morte de jornalistas como quem assiste à morte de pernilongos inconvenientes, são justamente os poderosos que a imprensa fiscaliza, os que a atacam, os que sequer possuem credibilidade para ser questionada.

Publicada originalmente na Crusoé.

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